Ele iria fugir. A Resolução estava pouco à pouco tomando forma na sua cabeça. Já vinha ganhando espaço entre seus pensamentos, feito uma erva daninha entre as rosas, desde o início daquele ano. Estava decidido. Não queria pensar muito, pensar o faria desistir. Não, não iria desistir novamente. Dessa vez era pra valer.
Seria nessa semana mesmo, mas ainda não havia decidido o dia. Não, nem era preciso pensar muito em datas, mas sabia que seria nessa semana. Acordaria de manhã, e ao levantar, saberia 'hoje é o dia'.
Era mesmo uma Fuga? Ou uma busca ? E busca de quê?
Ele não sabia dizer. Mas não precisava procurar certezas para fugir. Estava fugindo em busca das certezas. Fugiria, sem rumo a princípio; o vento, a alma e os pés o levariam onde precisaria chegar.
Por um segundo refletiu em tudo que deixaria para trás, apenas por um breve segundo. Pensou se haveriam lágrimas, saudades, indignações. Pensou que seria injusto. Não, pare de pensar, disse. Pensar não ajuda, não agora. Não pensarei, pensou, num paradoxo mental. E voltou a confusão original. Chega, berrou mentalmente, e abriu as janelas do ônibus para sentir as fortes rajadas de vento açoitando seu rosto.
Fugir, fugir...
...
Desceu do ônibus, caminhou lentamente, mancando do dolorido pé, até em casa. Comeu, deitou, dormiu. Amanhã seria mais um dia. E depois outro, e depois outro, e depois... aguardaria o dia da fuga, como uma criança aguarda a visita do papai Noel no natal.
Nenhum comentário:
Postar um comentário