terça-feira, 6 de novembro de 2007

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Não leve a mal
se eu fico um pouco zonza
Luzes de neon
acendem quando você passa
Não leve a mal
ver você me faz querer viajar
pra perto da lua
no azul do seu olhar
Não leve a mal
Não leve a mal
se eu pareço um pouco louca
ando tão distraída
sonhando com beijos na boca
Não leve a mal
Se quando você me olha
eu finjo que não quero
só pra fazer mistério
Acontece assim
com o meu coração
bate só por uma pessoa
sem muita razão
de repente chuva
de repente trovão
o que eu sinto por você
virou uma tempestade
e vai na sua direção
Não leve a mal
se eu mudo feito à moda
hoje eu fico insegura
mais amanhã quero aventura
não leve a mal
se eu ficar muito apaixonada
podia ser incrível
podia ser nós dois
podia ser verdade
Não leve a mal.

Danni Carlos

Eu ando

Por entre as ruas dos mistérios de uma paixão, sintindo-me perdido novamente. Mas, agora, com um diferencial: posso não saber por onde ando, mas em mim foi gravado um mapa, que consulto vez por outra, a fim de pesquisar futuros obscuros. Sou louco e santo ao mesmo tempo, quando aos afagos de meu amor me rendo. Vou perdendo minha dignidade, aos poucos e tão frágilmente conseguida, em nome de causas e paixões desmembradas por sonhos inúteis e destruídos por uma centelha de passado. Ah, o passado...esse que teima me lamber minha nuca nas noites frias de setembro. Esse que me assombrou por dias e dias a fio, mas que agora já não me assusta mais. Ganhei um aliado, e sobre ele poucos podem exercer poder. Mas nem adianta tentar conversar...minha língua é grande demais para soletrar qualquer palavra. E no fim de tudo, acordarei numa cama macia, velha e enferrujada; enrolado em cobertores comidos de traça, mofados e cheirosos. Olharei em volta e não verei nada...pois não há nada...não há nada...

Choro bandido

Mesmo que os cantores sejam falsos como eu
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu para mim
Você nasceu para mim
Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim
Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes
Seus amores serão bons

Chico Buarque

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Hum- hum...

"É tão difícil falar e dizer coisas que não podem ser ditas. É tão silencioso. Como traduzir o silêncio do encontro real entre nós dois? Dificílimo contar. Olhei pra você fixamente por instantes. Tais momentos são meu segredo. Houve o que se chama de comunhão perfeita. Eu chamo isto de estado agudo de felicidade."

Clarice Lispector

Amor

Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde. Depositou o volume no colo e o bonde começou a andar. Recostou-se então no banco procurando conforto, num suspiro de meia satisfação. Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício. Ana dava a tudo, tranqüilamente, sua mão pequena e forte, sua corrente de vida. Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores que plantara riam dela. Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se. No entanto sentia-se mais sólida do que nunca, seu corpo engrossara um pouco e era de se ver o modo como cortava blusas para os meninos, a grande tesoura dando estalidos na fazenda. Todo o seu desejo vagamente artístico encaminhara-se há muito no sentido de tornar os dias realizados e belos; com o tempo, seu gosto pelo decorativo se desenvolvera e suplantara a íntima desordem. Parecia ter descoberto que tudo era passível de aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma aparência harmoniosa; a vida podia ser feita pela mão do homem. No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha — com persistência, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e o escolhera. Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto — ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido. Saía então para fazer compras ou levar objetos para consertar, cuidando do lar e da família à revelia deles. Quando voltasse era o fim da tarde e as crianças vindas do colégio exigiam-na. Assim chegaria a noite, com sua tranqüila vibração. De manhã acordaria aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis de novo empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos. Quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das raízes negras e suaves do mundo. E alimentava anonimamente a vida. Estava bom assim. Assim ela o quisera e escolhera. O bonde vacilava nos trilhos, entrava em ruas largas. Logo um vento mais úmido soprava anunciando, mais que o fim da tarde, o fim da hora instável. Ana respirou profundamente e uma grande aceitação deu a seu rosto um ar de mulher. O bonde se arrastava, em seguida estacava. Até Humaitá tinha tempo de descansar. Foi então que olhou para o homem parado no ponto. A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um cego. O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranqüila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles... Um homem cego mascava chicles. Ana ainda teve tempo de pensar por um segundo que os irmãos viriam jantar — o coração batia-lhe violento, espaçado. Inclinada, olhava o cego profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mascava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir — como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse teria a impressão de uma mulher com ódio. Mas continuava a olhá-lo, cada vez mais inclinada — o bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenida para trás, o pesado saco de tricô despencou-se do colo, ruiu no chão — Ana deu um grito, o condutor deu ordem de parada antes de saber do que se tratava — o bonde estacou, os passageiros olharam assustados. Incapaz de se mover para apanhar suas compras, Ana se aprumava pálida. Uma expressão de rosto, há muito não usada, ressurgia-lhe com dificuldade, ainda incerta, incompreensível. O moleque dos jornais ria entregando-lhe o volume. Mas os ovos se haviam quebrado no embrulho de jornal. Gemas amarelas e viscosas pingavam entre os fios da rede. O cego interrompera a mastigação e avançava as mãos inseguras, tentando inutilmente pegar o que acontecia. O embrulho dos ovos foi jogado fora da rede e, entre os sorrisos dos passageiros e o sinal do condutor, o bonde deu a nova arrancada de partida. Poucos instantes depois já não a olhavam mais. O bonde se sacudia nos trilhos e o cego mascando goma ficara atrás para sempre. Mas o mal estava feito. A rede de tricô era áspera entre os dedos, não íntima como quando a tricotara. A rede perdera o sentido e estar num bonde era um fio partido; não sabia o que fazer com as compras no colo. E como uma estranha música, o mundo recomeçava ao redor. O mal estava feito. Por quê? Teria esquecido de que havia cegos? A piedade a sufocava, Ana respirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento estavam agora de sobreaviso, tinham um ar mais hostil, perecível... O mundo se tornara de novo um mal-estar. Vários anos ruíam, as gemas amarelas escorriam. Expulsa de seus próprios dias, parecia-lhe que as pessoas da rua eram periclitantes, que se mantinham por um mínimo equilíbrio à tona da escuridão — e por um momento a falta de sentido deixava-as tão livres que elas não sabiam para onde ir. Perceber uma ausência de lei foi tão súbito que Ana se agarrou ao banco da frente, como se pudesse cair do bonde, como se as coisas pudessem ser revertidas com a mesma calma com que não o eram. O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada. O calor se tornara mais abafado, tudo tinha ganho uma força e vozes mais altas. Na Rua Voluntários da Pátria parecia prestes a rebentar uma revolução, as grades dos esgotos estavam secas, o ar empoeirado. Um cego mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão. Em cada pessoa forte havia a ausência de piedade pelo cego e as pessoas assustavam-na com o vigor que possuíam. Junto dela havia uma senhora de azul, com um rosto. Desviou o olhar, depressa. Na calçada, uma mulher deu um empurrão no filho! Dois namorados entrelaçavam os dedos sorrindo... E o cego? Ana caíra numa bondade extremamente dolorosa. Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite - tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. E um cego mascando goma despedaçava tudo isso. E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca. Só então percebeu que há muito passara do seu ponto de descida. Na fraqueza em que estava, tudo a atingia com um susto; desceu do bonde com pernas débeis, olhou em torno de si, segurando a rede suja de ovo. Por um momento não conseguia orientar-se. Parecia ter saltado no meio da noite. Era uma rua comprida, com muros altos, amarelos. Seu coração batia de medo, ela procurava inutilmente reconhecer os arredores, enquanto a vida que descobrira continuava a pulsar e um vento mais morno e mais misterioso rodeava-lhe o rosto. Ficou parada olhando o muro. Enfim pôde localizar-se. Andando um pouco mais ao longo de uma sebe, atravessou os portões do Jardim Botânico. Andava pesadamente pela alameda central, entre os coqueiros. Não havia ninguém no Jardim. Depositou os embrulhos na terra, sentou-se no banco de um atalho e ali ficou muito tempo. A vastidão parecia acalmá-la, o silêncio regulava sua respiração. Ela adormecia dentro de si. De longe via a aléia onde a tarde era clara e redonda. Mas a penumbra dos ramos cobria o atalho. Ao seu redor havia ruídos serenos, cheiro de árvores, pequenas surpresas entre os cipós. Todo o Jardim triturado pelos instantes já mais apressados da tarde. De onde vinha o meio sonho pelo qual estava rodeada? Como por um zunido de abelhas e aves. Tudo era estranho, suave demais, grande demais. Um movimento leve e íntimo a sobressaltou — voltou-se rápida. Nada parecia se ter movido. Mas na aléia central estava imóvel um poderoso gato. Seus pêlos eram macios. Em novo andar silencioso, desapareceu. Inquieta, olhou em torno. Os ramos se balançavam, as sombras vacilavam no chão. Um pardal ciscava na terra. E de repente, com mal-estar, pareceu-lhe ter caído numa emboscada. Fazia-se no Jardim um trabalho secreto do qual ela começava a se aperceber. Nas árvores as frutas eram pretas, doces como mel. Havia no chão caroços secos cheios de circunvoluções, como pequenos cérebros apodrecidos. O banco estava manchado de sucos roxos. Com suavidade intensa rumorejavam as águas. No tronco da árvore pregavam-se as luxuosas patas de uma aranha. A crueza do mundo era tranqüila. O assassinato era profundo. E a morte não era o que pensávamos. Ao mesmo tempo que imaginário — era um mundo de se comer com os dentes, um mundo de volumosas dálias e tulipas. Os troncos eram percorridos por parasitas folhudas, o abraço era macio, colado. Como a repulsa que precedesse uma entrega — era fascinante, a mulher tinha nojo, e era fascinante. As árvores estavam carregadas, o mundo era tão rico que apodrecia. Quando Ana pensou que havia crianças e homens grandes com fome, a náusea subiu-lhe à garganta, como se ela estivesse grávida e abandonada. A moral do Jardim era outra. Agora que o cego a guiara até ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas. As pequenas flores espalhadas na relva não lhe pareciam amarelas ou rosadas, mas cor de mau ouro e escarlates. A decomposição era profunda, perfumada... Mas todas as pesadas coisas, ela via com a cabeça rodeada por um enxame de insetos enviados pela vida mais fina do mundo. A brisa se insinuava entre as flores. Ana mais adivinhava que sentia o seu cheiro adocicado... O Jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno. Era quase noite agora e tudo parecia cheio, pesado, um esquilo voou na sombra. Sob os pés a terra estava fofa, Ana aspirava-a com delícia. Era fascinante, e ela sentia nojo. Mas quando se lembrou das crianças, diante das quais se tornara culpada, ergueu-se com uma exclamação de dor. Agarrou o embrulho, avançou pelo atalho obscuro, atingiu a alameda. Quase corria — e via o Jardim em torno de si, com sua impersonalidade soberba. Sacudiu os portões fechados, sacudia-os segurando a madeira áspera. O vigia apareceu espantado de não a ter visto. Enquanto não chegou à porta do edifício, parecia à beira de um desastre. Correu com a rede até o elevador, sua alma batia-lhe no peito — o que sucedia? A piedade pelo cego era tão violenta como uma ânsia, mas o mundo lhe parecia seu, sujo, perecível, seu. Abriu a porta de casa. A sala era grande, quadrada, as maçanetas brilhavam limpas, os vidros da janela brilhavam, a lâmpada brilhava — que nova terra era essa? E por um instante a vida sadia que levara até agora pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver. O menino que se aproximou correndo era um ser de pernas compridas e rosto igual ao seu, que corria e a abraçava. Apertou-o com força, com espanto. Protegia-se tremula. Porque a vida era periclitante. Ela amava o mundo, amava o que fora criado — amava com nojo. Do mesmo modo como sempre fora fascinada pelas ostras, com aquele vago sentimento de asco que a aproximação da verdade lhe provocava, avisando-a. Abraçou o filho, quase a ponto de machucá-lo. Como se soubesse de um mal — o cego ou o belo Jardim Botânico? — agarrava-se a ele, a quem queria acima de tudo. Fora atingida pelo demônio da fé. A vida é horrível, disse-lhe baixo, faminta. O que faria se seguisse o chamado do cego? Iria sozinha... Havia lugares pobres e ricos que precisavam dela. Ela precisava deles... Tenho medo, disse. Sentia as costelas delicadas da criança entre os braços, ouviu o seu choro assustado. Mamãe, chamou o menino. Afastou-o, olhou aquele rosto, seu coração crispou-se. Não deixe mamãe te esquecer, disse-lhe. A criança mal sentiu o abraço se afrouxar, escapou e correu até a porta do quarto, de onde olhou-a mais segura. Era o pior olhar que jamais recebera. Q sangue subiu-lhe ao rosto, esquentando-o. Deixou-se cair numa cadeira com os dedos ainda presos na rede. De que tinha vergonha? Não havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a água escapava. Estava diante da ostra. E não havia como não olhá-la. De que tinha vergonha? É que já não era mais piedade, não era só piedade: seu coração se enchera com a pior vontade de viver. Já não sabia se estava do lado do cego ou das espessas plantas. O homem pouco a pouco se distanciara e em tortura ela parecia ter passado para o lados que lhe haviam ferido os olhos. O Jardim Botânico, tranqüilo e alto, lhe revelava. Com horror descobria que pertencia à parte forte do mundo — e que nome se deveria dar a sua misericórdia violenta? Seria obrigada a beijar um leproso, pois nunca seria apenas sua irmã. Um cego me levou ao pior de mim mesma, pensou espantada. Sentia-se banida porque nenhum pobre beberia água nas suas mãos ardentes. Ah! era mais fácil ser um santo que uma pessoa! Por Deus, pois não fora verdadeira a piedade que sondara no seu coração as águas mais profundas? Mas era uma piedade de leão. Humilhada, sabia que o cego preferiria um amor mais pobre. E, estremecendo, também sabia por quê. A vida do Jardim Botânico chamava-a como um lobisomem é chamado pelo luar. Oh! mas ela amava o cego! pensou com os olhos molhados. No entanto não era com este sentimento que se iria a uma igreja. Estou com medo, disse sozinha na sala. Levantou-se e foi para a cozinha ajudar a empregada a preparar o jantar. Mas a vida arrepiava-a, como um frio. Ouvia o sino da escola, longe e constante. O pequeno horror da poeira ligando em fios a parte inferior do fogão, onde descobriu a pequena aranha. Carregando a jarra para mudar a água - havia o horror da flor se entregando lânguida e asquerosa às suas mãos. O mesmo trabalho secreto se fazia ali na cozinha. Perto da lata de lixo, esmagou com o pé a formiga. O pequeno assassinato da formiga. O mínimo corpo tremia. As gotas d'água caíam na água parada do tanque. Os besouros de verão. O horror dos besouros inexpressivos. Ao redor havia uma vida silenciosa, lenta, insistente. Horror, horror. Andava de um lado para outro na cozinha, cortando os bifes, mexendo o creme. Em torno da cabeça, em ronda, em torno da luz, os mosquitos de uma noite cálida. Uma noite em que a piedade era tão crua como o amor ruim. Entre os dois seios escorria o suor. A fé a quebrantava, o calor do forno ardia nos seus olhos. Depois o marido veio, vieram os irmãos e suas mulheres, vieram os filhos dos irmãos. Jantaram com as janelas todas abertas, no nono andar. Um avião estremecia, ameaçando no calor do céu. Apesar de ter usado poucos ovos, o jantar estava bom. Também suas crianças ficaram acordadas, brincando no tapete com as outras. Era verão, seria inútil obrigá-las a dormir. Ana estava um pouco pálida e ria suavemente com os outros. Depois do jantar, enfim, a primeira brisa mais fresca entrou pelas janelas. Eles rodeavam a mesa, a família. Cansados do dia, felizes em não discordar, tão dispostos a não ver defeitos. Riam-se de tudo, com o coração bom e humano. As crianças cresciam admiravelmente em torno deles. E como a uma borboleta, Ana prendeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu. Depois, quando todos foram embora e as crianças já estavam deitadas, ela era uma mulher bruta que olhava pela janela. A cidade estava adormecida e quente. O que o cego desencadeara caberia nos seus dias? Quantos anos levaria até envelhecer de novo? Qualquer movimento seu e pisaria numa das crianças. Mas com uma maldade de amante, parecia aceitar que da flor saísse o mosquito, que as vitórias-régias boiassem no escuro do lago. O cego pendia entre os frutos do Jardim Botânico. Se fora um estouro do fogão, o fogo já teria pegado em toda a casa! pensou correndo para a cozinha e deparando com o seu marido diante do café derramado. — O que foi?! gritou vibrando toda. Ele se assustou com o medo da mulher. E de repente riu entendendo: — Não foi nada, disse, sou um desajeitado. Ele parecia cansado, com olheiras. Mas diante do estranho rosto de Ana, espiou-a com maior atenção. Depois atraiu-a a si, em rápido afago. — Não quero que lhe aconteça nada, nunca! disse ela. — Deixe que pelo menos me aconteça o fogão dar um estouro, respondeu ele sorrindo. Ela continuou sem força nos seus braços. Hoje de tarde alguma coisa tranqüila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver. Acabara-se a vertigem de bondade. E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.


Texto extraído no livro “Laços de Família”, Editora Rocco – Rio de Janeiro, 1998, pág. 19, incluído entre “Os cem melhores contos brasileiros do século”, Editora Objetiva – Rio de Janeiro, 2000, seleção de Ítalo Moriconi.

LISPECTOR, Clarice. Fragmentos diversos perdidos em minha agenda.

Nada que existe escapa à transfiguração, não saberei que existi daqui a poucos anos.

Fez-se muitas perguntas mas nunca pode responder: parava para sentir.

A tragédia moderna é a procura vã de adaptação do homem ao estado de coisas que ele criou.

eu me sinto tão dentro do mundo que me parece não estar pensando, mas usando de uma nova modalidade de respirar

não é o grau que separa a inteligência do gênio, mas a qualidade

Medo de não amar, maior que o medo de não ser amado.

Que façam harpas de meus nervos quando eu morrer.

... a vida sempre nos deixa intocados.

conto apenas o que vi, não o que vejo (não sei repetir)

Lalande - lágrimas de anjo. É o mar, que nenhumm olhar ainda viu.

a beleza das palavras, natureza abstrata de Deus

Se amar um marinheiro terei amado o mundo inteiro.

essa tristeza leve é a constatação de viver

Meu filho crescerá de minha força e me esmagará com sua vida

posso parir um filho e nada sei

compreende a vida porque não é suficientemente inteligente para não compreendê-la

- Bom é viver. Mau é...
Mau é não viver...
- Morrer?
- Não, não. Mau é não viver... morrer é diferente do bom e do mal

É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer.

Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto, como o que sinto se transforma lentamente no que digo.

LISPECTOR, Clarice. Perto do Coração Selvagem.

Deus meu eu vos espero, Deus, vinde a mim, Deus, brotai no meu peito. Eu não sou nada, e a desgraça cai sobre minha cabeça e eu só sei usar palavras e as palavras são mentirosas, e eu continuo a sofrer - afinal o fio sobre a parede escura -. Deus, vinde a mim e não tenho alegria e minha vida é escura como a noite sem estrelas e Deus, porque não existes dentro de mim? Porque me fizeste separada de ti? Deus, vinde a mim, eu não sou nada, eu sou menos que o pó e eu te espero todos os dias e todas as noites. Ajudai-me, eu só tenho uma vida e essa vida escorre pelos meus dedos e encaminha-se para a morte serenamente e eu nada posso fazer e apenas assisto ao meu esgotamento em cada minuto que passa. Sou só no mundo, quem me quer não me conhece, quem me conhece, me teme e eu sou pequena e pobre. Não saberei que existi daqui a poucos anos. O que me resta para viver é pouco, e o que me resta para viver, no entanto, continuará intocado e inútil. Porque não te apiedas de mim, que não sou nada? Dai-me o que preciso. Deus, dai-me o que preciso, e não sei o que seja, minha desolação é funda como um poço e eu não me engano diante de mim e das pessoas. Vinde a mim na desgraça e a desgraça é hoje, e a desgraça é sempre. Beijo teus pés e o pó dos teus pés. Quero me dissolver em lágrimas. Das profundezas chamo por vós, vinde em meu auxílio que eu não tenho pecados. Das profundezas chamo por vós. E nada responde e meu desespero é seco como as areias do deserto e minha perplexidade me sufoca, humilha-me, Deus, esse orgulho de viver me amordaça - eu não sou nada -. Das profundezas chamo por vós. Das profundezas chamo por vós. Das profundezas chamo por vós. Das profundezas chamo por vós.

Não, não, nenhum Deus, eu quero estar só. E um dia virá, sim, um dia virá em mim a capacidade tão vermelha e afirmativa quanto clara e suave, um dia o que eu fizer será cegamente, seguramente, inconscientemente, pisando em mim, na minha verdade, tão integralmente lançada no que fizer que serei incapaz de falar, sobretudo um dia virá em que todo meu movimento será criação, nascimento. Eu romperei todos os nãos que existem dentro de mim, provarei a mim mesma que nada há a temer, que tudo o que eu for será sempre onde haja uma mulher com meu princípio, erguerei dentro de mim o que sou um dia, a um gesto meu minhas vagas se levantarão poderosas, água pura submergindo a dúvida, a consciência, eu serei forte como a alma de um animal e quando eu falar serão palavras não pensadas e lentas, não levemente sentidas, não cheias de vontade de humanidade, não o passado corroendo o futuro! O que eu disser soará fatal e inteiro. Não haverá nenhum espaço dentro de mim para eu saber que existe o tempo, os homens, as dimensões, não haverá nenhum espaço dentro de mim para notar sequer que estarei criando instante por instante, não instante por instante; sempre fundido, porque então viverei, só então serei maior que na infância, serei brutal e mal feita como uma pedra, serei leve e vaga como o que se sente e não se entende, me ultrapassarei em ondas. Ah, Deus, e que tudo venha e caia sobre mim, até a compreensão de mim mesma em certos momentos brancos porque basta me cumprir e então nada impedirá o meu caminho até a morte sem medo de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo.

Síntese da Felicidade

Desejo a você...
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua Cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não Ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu.

Carlos Drummond de Andrade

Simples Desejo

Que tal abrir a porta do dia,dia
Entrar sem pedir licença
Sem parar pra pensar,
Pensar em nada…
Legal ficar sorrindo à toa,toa
Sorrir pra qualquer pessoa
Andar sem rumo na rua
Pra viver e pra ver
Não é preciso muito
Atenção, a lição
Está em cada gesto
Tá no mar, tá no ar
No brilho dos seus olhos
Eu não quero tudo de uma vez
Eu só tenho um simples desejo
Hoje eu só quero que o dia termine bem
Hoje eu só quero que o dia termine muito bem (2X)
Legal ficar sorrindo à toa,toa
Sorrir pra qualquer pessoa
Andar sem rumo na rua
Pra viver e pra ver
Não é preciso muito nãoAtenção, a lição
Está em cada gesto
Tá no mar, tá no ar
No brilho dos seus olhos
Eu não quero tudo de uma vez não
Eu só tenho um simples desejo
Hoje eu só quero que o dia termine bem
Hoje eu só quero que o dia termine muito bem (4X)

Olha para mim

e Presta atenção...o que você vê?
Tem apenas três chances...Não desperdiçe nenhuma;
não sou homem de voltar atrás.

Friedrich Nietzsche

Sou demasiado orgulhoso para acreditar que um homem me ame: seria supor que ele sabe quem sou eu. Também não acredito que possa amar alguém: pressuporia que eu achasse um homem da minha condição.

Homens

Eu não penso com a glânde do pênis, mas com o encéfalo no crânio.

domingo, 21 de outubro de 2007

Martha Medeiros*

Eu triste, sou calado
Eu bravo, sou estúpido
Eu lúcido, sou chato
Eu gato, sou esperto
Eu cego, sou vidente
Eu carente, sou insano
Eu malandro, sou fresco
Eu seco, sou vazio
Eu frio, sou distante
Eu quente, sou oleoso
Eu, em prosa, sou tantos
Eu santo, sou gelado
Eu salgado, sou cru
Eu puro, sou tentado
Eu sentado, sou alto
Eu jovem, sou donzelo
Eu belo, sou fútil
Eu útil, sou bom
Eu, à toa, sou teu.

* adaptado por mim...^^

sábado, 20 de outubro de 2007

Sou um Texto



Eu sou um texto que deliciosamente você lê.
Um texto gostoso.Engraçado.Erótico.Descritivo...
Um texto narrativo; narro histórias inventadas aqui, ou plagiadas ali. Histórias que você lê.

E relê. E estcuta. E vê.
Um texto dissertativo; vou defendendo minhas idéias de modo sagaz, com unhas e dentes e persuadindo-o cada vez mais.
Um texto literário, onde reencarno dos grandes mestres, grandes personagens; me torno Brás Cubas, Dom Casmurro; Lúcia, Aurélia Camargo, Iracema e Cecília. Helena e Capitú. Macabéa e G.H.; Orlando e Dalloway; Bovary. Dorian Gray. Sofia Amundsen. Poirot e Mrs.Marple; Mary Ashley, katherine e Noelle, Tobey, Jhennifer, Blackwell e Richard. Scarllet O'hara...
E muitos outros...Sou um infinito múltiplo de vidas, que coexistem diversamente em mim.
Sou a Exclamação, a Ironia, a Paráfrase, a Paródia, o Romance, o Suspense.
A Frase e a Oração.
O sujeito e o Predicado.
O Livro e a Biografia.
A Resenha.
A Imagem.
A Idéia.
Leia minhas idéias, meu corpo, minhas pernas.
Meus gestos, meus pêlos, meus olhos.
Minha voz.
Leia-me. Interprete-me. Entenda-me.
Perca-se nos meus parágrafos, e entenda minhas entrelinhas...
E resuma-me no teu íntimo...
Venha ser a minha biografia...
Deite-se nos meus braços, e eu me lerei para você...

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Minha primeira vez...

Fada

E se uma fada madrinha lhe concedesse um pedido, qual seria?

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

E naquela noite que nossas pernas se confundiram com os lençóis...

...o mundo fora somente nós.

Eu pergunto

E o que você diria se eu sumisse?
Se minha vida não passasse de uma invenção?
E se descobrisse que sou um nada, sem passado
sem futuro, pura ilusão?
O que diria se minha vida não existisse?
Se minhas palavras tu não ouvisse
Se meus olhos não pudesse mais ver
E minha voz nunca mais ouvisse
O que diria,
Amado meu,
O que diria?

Nietzsche

"Odeio as almas estreitas, sem bálsamo e sem veneno, feitas sem nada de bondade e sem nada de maldade."

Friederich Nietzsche

Me beija

E segura nos meus ombros. Agarra minha cintura, pressiona teu corpo contra meu corpo. Beija-me. Me beija. Me ama. Me consuma. Me destrua. E me faça feliz...

sábado, 13 de outubro de 2007

"(...)são eles..."

Declaro hoje que minha voz de nada vale.
" Permito que me usem so por um tempo, pq assim eu não me torno senhor dos meus senhores; eles pensam q dominam, mas quem domina sou eu. Eles necessitam de alguem para dominar, então eu me rendo às suas vontades, a fim de agradar-lhes, mas íntimamente, quem está me agradando são eles..."

Olho nos olhos



"Te olho nos olhos
E você reclama
Que te olho muito profundamente
Desculpa
Mas tudo que vivi
Foi muito profundamente.
Eu te ensinei quem sou
E você foi me tirando
Os espaços entre os abraços
Guarda-me apenas uma fresta.
Eu que sempre fui livre
Não importava o que os outros dissessem
Até onde eu posso ir pra te resgatar?
Reclama de mim
Como se houvesse possibilidade
De eu me inventar de novo.
Desculpa,
Desculpa se te olho profundamente
Rente à pele
A ponto de ver seus ancestrais nos seus traços,
A ponto de ver a estrada
Onde ficam seus passos.
Eu não vou separar
Minhas vitórias
Dos meus fracassos,
Eu não vou renunciar a mim
A nenhuma parte
Nenhum pedaço
Do meu ser vibrante,
Errante,
Sujo,
Livre,
Quente.
Eu quero estar vivo
E permanecer te olhando profundamente."


Declamado por Ana Carolina no show da turnê "dois quartos"

Rifa-se um coração

Rifa-se um coração quase novo.
Um coração idealista.
Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração moleque
que insisteem pregar peças no seu usuário.
Rifa-se um coração que na realidade está umpouco usado,
meio calejado,
muito machucado
e que teima em alimentar sonhos e, cultivar ilusões.
Um pouco inconseqüente
que nunca desistede acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado coração
que acha que Tim Maiaestava certo quando escreveu...
"...não quero dinheiro, eu quero amor sincero,
é isso que eu espero...".
Um idealista...
Um verdadeiro sonhador...
Rifa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece,
e mantém sempre viva aesperança de ser feliz,
sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional
sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida
que vive procurando
relações e emoções verdadeiras.
Rifa-se um coração que insiste em cometer
sempre os mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo
em nomede causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes revê suas posições
arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido.
Tantas vezes provocado.
Tantas vezes impulsivo.
Rifa-se este desequilibrado emocional
que abre sorrisos tão largos
que quase dá pra engolir as orelhas,
mas que também arranca lágrimas
e faz murchar o rosto.
Um coração para ser alugado,
ou mesmo utilizado
por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado
indicado apenas paraquem quer viver intensamente
contra indicado para os que
apenas pretendempassar pela vida matando o tempo,
defendendo-se das emoções.
Rifa-se um coração tão inocente
que se mostra sem armadura
se deixa louco o seu usuário.
Um coração que quando parar de bater
ouvirá o seu usuário dizer
para São Pedro na hora da prestação de contas:
"O Senhor pode conferir.
Eu fiz tudo certo,
só errei quando coloquei sentimento.
Só fiz bobagens e me dei mal
quando ouvi este louco coração de criança
que insiste em não endurecer e, se recusa a envelhecer"
Rifa-se um coração,
ou mesmo troca-se por
outro que tenha um pouco mais de juízo.
Um órgão mais fiel ao seu usuário.
Um amigo do peito que não mal
tratetanto o ser que o abriga.
Um coração que não seja tão inconseqüente.
Rifa-se um coração cego,
surdo e mudo,
mas que incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras
que ainda
não foi adotado,
provavelmente,
por se recusara cultivar ares selvagens
ou racionais,
por não querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio,
sem raça, sem pedigree.
Um simples coração humano.
Um impulsivo membro de comportamento
até meio ultrapassado.
Um modelo cheio de defeitos que,
mesmo estando fora do mercado,
faz questão de não se modernizar,
mas vez por outra,
constrange o corpo que o domina.
Um velho coração que convence
seu usuário a publicar seus segredos
e a ter a petulância de se aventurar como poeta.

"Clarice Lispector "

Não me vejo com alguém.

Estou sozinho nesse mundo, não por opção ou vontade.Mas por regra, exceção.Não há quem possa me compreender, nem mesmo eu.Não há quem queria me compreender.Nem eu mesmo.Não há quem vá comigo dividir a eternidade, pois esta é eterna e imutável demais pra minha pessoa.Tudo em demasia me enjoa.Tudo em escassez me afeta.Tudo com dureza me massacra.Tudo com amor me mata.Odeio os casais por eles serem felizes.Odeio os amantes por eles tranzarem sem se preocupar com o amanhã.Odeio os que falam, porque eles sempre tem quem os ouça.Odeio os mudos, porque eles aparentam ser superiores aos reles falantes num mundo de especulaões.Odeio os que estampam sorrisos nos rostos mal-desenhados, os que gargalham por motivos fúteis, os que se divertem as custas dos outros, e os que se deixam virar piada.Odeio quem me olha com desejo.Odeio quem me esnoba com sagacidade.Odeio quem me xinga, odeio quem me elogia.Odeio quem pensa em mim, quem fala de mim.Odeio quem se atreve a averturar-se pelos meus abismos imersos nas brumas sólidas da vertigem solitária de uma engrenagem simbólica de dor e náuseas.Odeio qualquer um que me dirija a palavra.Odeio quem odeia, quem ama e quem perdoa.Odeio qualquer coisa que eu goste.Mas amo aquele que me descarta.Porque ele me mostra quem sou, o que sou e o que nunca serei...

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Eu quero ser possuída por você,

Eu quero ser possuída por você,
Pelo seu corpo,
Pela sua proteção e pelo seu sangue. Me ama,
Eu quero que você me ame e
fique eternamente me amando dentro de mim,
com sua carne e o seu amor.
Eternamente, infinitamente dentro de mim, me envolvendo,
me decifrando, me consumindo e me revelando.
Como uma tarde dentro do elevador no verão
voltando da praia, e você me abraçou e eu te abracei.
Quanto mais eu me entregava, mais nascia o meu desejo,
mais sobrava só o desejo e mais eu te
Queria sem palavras e sem pensamentos.
A vida inteira resumida só no desejo
da tua boca dizendo o meu nome,
da tua mão conduzindo a minha mão,
Do teu corpo revelando o meu corpo
como se o mundo fosse pela primeira vez.
Você, meu ponto de referência nessa cidade !

José Vicente

até onde podemos ir para resgatar nossa humanidade?

Hoje amanheci estranho.Não consigo mais fazer uma série de coisas.Estou pensando...
Pensando nas crianças tristes, sem lares, sob o olhar inquisitor da miséria.
Penso nos mendigos, morrendo de frio, pelas ruas a vagar.
Penso nos velhos aprisionados em asilos, atados à memória latente de outrora.
Penso nos amores que perdi, nos que não cultivei, nos que deixei, nos que vivi.
Penso nas horas perdidas, nos dias sólidos e vazios.
Penso nas guerras, nas mortes, no sangue dos inocentes derramado injustamente.
Penso na pobreza, que nos assola, que nos mata, que nos atiça, que se infiltra.
Penso na avareza de alguns, na prepotência de outros, na esperteza de poucos, na vida de todos nós.
Penso nas pessoas altruistas, nas egocentristas, no mundo todo.
Penso no dinheiro, que nos escraviza pouco a pouco, se tornando algóz do mundo.
Penso na Srtª Violência, na dona Vaidade, na Perigosa Luxúria, no grandioso e perigossissimo Poder, na doce dama Vingança, no Sr. Ódio, na jovem Raiva, no ingênuo Amor.
Penso em mim e em você.
Penso em nós...
Penso em tudo que me preocupa, que alimenta essa inquietude em que me vejo.
Penso no mundo, em suas mazelas, nos humanos e suas maldades, nas suas futilidades...
Penso que hoje estou aqui, pensando nisso tudo, pensando nos outros, em como o mundo pode ser do jeito que ele é... e fico pensando...como pode haver tantas pessoas com seus olhos vidrados em seus próprios umbigos, enquanto numa esquina uma mulher é estuprada, um mendigo é espancado, uma menina morre baleada, um animal é violentado, uma senhora é assaltada...senhora essa que podia ser nossa mãe.Menina essa que podia ser nossa irmã.Mendigo esse que poderia ser nosso avô...
Penso porque nos tornamos indiferentes ao universo que nos circunda.Penso, só penso, porque me sinto tão pequeno e impotente diante disso tudo que apresenta-nos como solução apenas o conformismo...solução esta que estou longe de acatar.
Convido você a pensar então...até onde podemos ir para resgatar nossa humanidade?

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

chorarva ela

Diziam anjos não choravam...mas ela chorava, e chorava sem parar.Chorava até sentir seu íntimo esvaido de emoções; chorava até sentir sua vida descer pelo rosto e desfazer-se na ponta do queixo. Chorava para sentir-se feliz. Chorava numa vã tentativa de livrar-se da angústia, achando que se encarnavam no sal que escorria pelos seus olhos. Chorava de soluçar, crendo cegamente que os soluços eram os gritos do animal ferido aprisionado nas duras paredes do seu coração. Chorava, para sentir sua alma. E não tinha palavras para descrever sua dor. Sua dor, que ela desconhecia de significados; que ela abominava desculpas, uma dor que era tão antiga quanto a primordial noite do pecado. Uma dor que não podia se transduzir em lágrimas, em risos, em chutes ou palavras. Mas ainda sim chorava...para manter-se viva, para descarregar tensões. Chorava pra abrir buracos na cortina negra que a velava. Chorava em busca de alguém que enxergasse essas lágrimas e pudessem secá-las. Chorava, ás vezes, sem motivos. Chorava por chorar

Nada para falar

Não, nada tem importância por aqui...
não há nada para falar. Declaro que minha voz não é autônoma, e que as respostas que meu corpo dá aos seus estímulos nada representam. O mundo é infundado, e meus desejos são falseados.
Concluo que a vida não tem fim. E nem porquê. Só há um vazio sem perguntas.
Não venha me perguntar nada.